O que é letramento amarelo?

Letramento amarelo é o processo de reconhecer, valorizar e incluir as vivências, histórias e identidades de pessoas asiáticas no Brasil, enfrentando estereótipos e apagamentos históricos.

“As pessoas fazem piadas sobre nossos olhos e corpos. Usam o preconceito linguístico para zombar dos nossos idiomas, nomes e sobrenomes, apropriam-se e desconfiguram costumes e comidas. Não nos individualizam nem nos humanizam: dizem que ‘asiático é tudo igual’”, exemplifica Tati Takiyama, autora da página Notícias Amarelas.

“Somos estereotipados como pessoas recatadas, tímidas, frias, sem expressão, submissas e como se só servíssemos para áreas de exatas, como se não pudéssemos ser artistas, por exemplo. E, na maioria das vezes, é por meio do racismo recreativo — prática de fazer piadas ou representações ofensivas com base em estereótipos raciais, sob a justificativa de humor — que todos esses estigmas se manifestam”, acrescenta.

Portal Igualize: Por que é importante discutir o letramento racial voltado para pessoas amarelas no Brasil?

Tati Takiyama: Pessoas amarelas sofreram diversas opressões ao longo da história do país — e isso raramente é abordado nas escolas. Durante a ditadura militar, enfrentaram repressões, foram enviadas a campos de concentração, submetidas a trabalhos análogos à escravidão (como os coolies), além de sofrerem preconceito linguístico, racismo recreativo, a construção do “perigo amarelo”, o mito da minoria modelo e episódios de violência física e verbal, como os ocorridos durante a pandemia da COVID-19. Falar sobre isso é discutir o lugar das pessoas amarelas no Brasil, combater a exotização, a fetichização e o sentimento de não pertencimento, além de resgatar a memória e combater o apagamento histórico. É importante, também, que pessoas amarelas compreendam o processo de branqueamento pelo qual passaram, seu lugar no país e seu papel na luta antirracista.

Como o letramento racial amarelo pode ser realizado?

Takiyama: Seria fundamental que as crianças aprendessem quem são as pessoas amarelas desde a infância, por meio da escola, e que fôssemos representados de forma não estereotipada nos meios culturais e de comunicação. Precisamos estar presentes em livros, teatros, filmes, séries, desenhos, novelas, comerciais de TV etc. Ainda estamos avançando nesse caminho. Hoje, há pesquisadores publicando livros sobre o tema e pessoas que abordam o assunto nas redes sociais.

Quais são os principais estigmas, estereótipos e discriminações enfrentadas por pessoas amarelas no cotidiano?

Takiyama: Há piadas sobre nossos olhos e corpos. Sofremos com o preconceito linguístico, que ridiculariza nossos idiomas, nomes e sobrenomes. Nossos costumes e culinárias são apropriados e descaracterizados. Não somos vistos como indivíduos ou humanos: dizem que “asiático é tudo igual”, ignorando que a Ásia tem mais de 50 países e desconsiderando o processo de miscigenação no Brasil. Os estereótipos nos pintam como recatados, frios, submissos, sem expressão, bons apenas para áreas exatas. E tudo isso aparece, muitas vezes, disfarçado de humor, por meio do racismo recreativo.

Qual é o peso do racismo recreativo para pessoas amarelas?

Takiyama: Acredito que hoje seja a maior forma de opressão que enfrentamos. Embora pareça inofensivo, afeta profundamente a saúde mental e a autoestima das pessoas amarelas. Adilson Moreira, criador do conceito, explica como esse tipo de racismo é nocivo e difícil de combater por ser frequentemente tratado como “brincadeira”.

Como o racismo contra pessoas amarelas se manifesta de forma diferente em relação a outros grupos racializados?

Takiyama: Não vivemos um cenário de genocídio ou etnocídio como ocorre com povos negros e indígenas. Isso precisa ser dito: não se trata de comparar opressões, mas de entender especificidades. Um exemplo é o “mito da minoria modelo”, segundo o qual as pessoas amarelas são uma minoria “que deu certo” — como se isso fosse mérito individual, e não parte de um discurso que nega os direitos e as vozes das comunidades negras e indígenas, além de causar sofrimento e criar barreiras estruturais dentro da nossa própria comunidade.

Que papel a mídia e o entretenimento têm na construção da imagem social das pessoas amarelas?

Takiyama: Um papel central. Todos os estereótipos que citei foram difundidos por meio da mídia. O yellowface (quando atores não asiáticos interpretam personagens asiáticos de forma caricata), o whitewashing (quando atores brancos são escalados para papéis de personagens não brancos), as representações de gueixas, samurais, lutadores de kung fu, a mulher amarela hipersexualizada, o homem emasculado, nerd e assexual… tudo isso reforça uma imagem distorcida. Esse processo começou ainda no século XIX, quando as primeiras pessoas amarelas chegaram ao Brasil e a imprensa as retratou como ameaça. Há registros disso em obras como Perigo Amarelo – Imagens do Mito, Realidade do Preconceito, de Marcia Yumi Takeuchi, e Matizes do Amarelo – A Gênese dos Discursos Sobre os Orientais no Brasil, de Rogério Dezem.

Como professores e escolas podem incluir o letramento racial amarelo em suas práticas pedagógicas?

Takiyama: É preciso evitar representações estereotipadas e buscar referências reais e contextualizadas. O problema é que o ensino formal ainda é eurocêntrico e colonizado. Quando há tentativa de abordar a amarelitude, muitas vezes o material traz visões orientalistas e distorcidas. É difícil uma escola tratar seriamente o tema se não há pessoas amarelas racializadas no corpo docente ou se os educadores não passaram por esse letramento. Falar de diversidade sem representatividade dentro da equipe escolar é um desafio que precisa ser enfrentado.

Imagem: Freepik/AI