Afrodiaspora é um termo que se refere ao conjunto de comunidades e culturas de origem africana que se espalharam pelo mundo, principalmente devido ao tráfico de pessoas escravizadas entre os séculos XV e XIX.
“Diáspora é quando uma comunidade ou um povo se forma em outro território, sendo um conceito relacionado à política internacional e às relações internacionais. As diásporas africanas nas Américas resultam de um processo de escravidão. Dentre elas, por exemplo, estão os afro-brasileiros, afro-americanos, afro-chilenos, afro-colombianos etc.”, resume Aza Njeri, coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares sobre o Continente Africano e as Afro-diásporas (Lepecad) da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
A afrodiaspora abrange não apenas as experiências de deslocamento forçado, mas também os processos de adaptação, sobrevivência e resistência cultural da população africana e seus descendentes. Confira mais em uma entrevista completa com Aza Njeri.
Portal Igualize: O que é a afrodiáspora?
Aza Njeri: Diáspora é quando uma comunidade ou um povo se forma em outro território, sendo um conceito relacionado à política internacional e às relações internacionais. É mais conhecido para se referir à diáspora judaica, mas serve para qualquer comunidade ou população. As diásporas africanas nas Américas resultam de um processo de escravidão. Dentre elas, por exemplo, os afro-brasileiros, afro-americanos, afro-chilenos, afro-colombianos etc. Essas pessoas estão enraizadas no território da América devido ao deslocamento e à escravidão.
Há outras afrodiásporas nas Américas não relacionadas à escravidão?
Njeri: Podemos considerar a imigração do século 20, resultante das independências africanas, como uma segunda afrodiáspora, pois fez com que muitas pessoas deixassem o continente e migrassem para os Estados Unidos e Europa em busca de uma vida melhor. Elas chegaram entre as décadas de 1960 e 1990, pois seus países estavam em guerra civil, desestabilização ou em processo de descolonização. Recentemente, houve outra formação da diáspora no século 21. Aqueles episódios do início dos anos 2000, com pessoas fugindo em barcos e tentando entrar na Europa, sendo impedidas, e com barcos naufragando no mar Mediterrâneo, também fazem parte dessa dinâmica. A Primavera Árabe, a guerra do Congo com Ruanda, e a do Sudão com o Sudão do Sul provocaram exílio e desterro, e esse movimento para fora do país acaba formando também diáspora.
A cultura africana se reinventou nos diferentes territórios da diáspora?
Njeri: Sim, porque ela conflui com culturas nativas, como define o filósofo Nego Bispo. No caso do Brasil, foram os indígenas que aqui estavam e também eram oprimidos pelos europeus, e que ensinaram os africanos a lidar com o novo território, suas plantas e seus usos. Eram pessoas que possuíam uma visão de mundo, da sacralidade da natureza, de si mesmas e das relações humanas, mais próximas em relação ao colonizador ocidental. Então, penso que foi natural essa confluência, gerando algo novo culturalmente.
Que papel a ancestralidade desempenha na construção da identidade afrodescendente?
Njeri: Não vou dizer que a ancestralidade é determinante, mas ela é fundamental para a cultura africana. Não existe cultura africana, logo, afrodiaspórica, sem ancestralidade. O conceito de ancestralidade é uma máxima dentro das múltiplas visões filosóficas africanas, mas principalmente entre os iorubás e os bakongos, que são os mais presentes na experiência do Brasil. Para eles, nós seremos ancestrais do tempo futuro, e isso é uma certeza inegociável da vida. Somos parte da ancestralidade que veio antes e formaremos a ancestralidade que virá depois. Seremos os ancestrais daqueles que estarão vivos no futuro. Além disso, existe a questão espiritual da ancestralidade africana, que é diferente do pensamento cristão, relacionado ao céu e inferno, à morte e ao não-retorno. Nas diversas visões filosóficas africanas, a ancestralidade é o pilar do bom viver. Se os ancestrais estão em paz, eles guardam por você. Se meus pais já faleceram, eles estão vivos, junto aos meus outros ancestrais, me guiando e protegendo. No Candomblé, os orixás são entidades ancestrais. Ou seja, se você é uma pessoa, por exemplo, de Oxóssi, significa que Oxóssi é um ancestral da sua linhagem. Em suma, não existe pensamento africano sem ancestralidade e sem senioridade.
Há uma relação entre afrodiáspora e identidade?
Njeri: Afrodiáspora é um conceito das relações internacionais e não tem a ver com identidade. Quanto à identidade, uma pessoa negra de ascendência africana pode se definir com a identidade que ela bem entender para si mesma. Mas isso não anula o fato de ela pertencer a uma diáspora africana, sendo o Brasil a maior diáspora africana do mundo. Ou seja, o Brasil tem a maior população afrodescendente do mundo fora do continente africano.
Há outras informações sobre a afrodiáspora que gostaria de destacar?
Njeri: O mais interessante é entender que somos sementes. Apesar da escravidão, do sequestro, da desumanização e do genocídio contemporâneo que a população negra sofre atualmente, nós ainda resistimos e somos sementes. Isso tem a ver com a resiliência que foi também uma experiência legada pelos africanos no processo de sequestro e escravidão. Portanto, se hoje somos um povo resiliente e lúcido sobre nossa desumanização, devemos agradecer a essa base ancestral que também tivemos.
Imagem: wirestock/Freepik
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