O audiovisual pode ajudar a informar e sensibilizar sobre a atual situação vivida pela Palestina.
Segundo a cineasta e mestre em meios e processos audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP), Juliana Muniz, a Faixa de Gaza vive hoje um genocídio ‘hipervisível’.
“São centenas de imagens, compartilhadas principalmente por redes sociais e meios de comunicação mais ou menos hegemônicos, que expõem o horror vivido pelo povo palestino. É um genocídio transmitido praticamente ao vivo para o mundo há quase dois anos”, descreve ela, que integra o Coletivo Vozes Judaicas por Libertação.
Na tentativa de denunciar o que acontece no território, mais de 170 jornalistas foram mortos desde o início da ofensiva de Israel contra a Faixa de Gaza, segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ). Para a ONG Repórteres Sem Fronteiras, seriam mais de 200.
“Isso revela que o audiovisual tem o poder de denúncia e também de disputar narrativas, questionar o estabelecido pelos meios de comunicação hegemônicos. É também uma ferramenta de documentação que registra na memória coletiva o que acontece com aquelas pessoas naquele território, ainda mais atualmente, dada a democratização da produção audiovisual por câmeras de celular”, enfatiza Muniz. “O cinema em si foi e segue sendo uma ferramenta de resistência histórica do povo palestino na luta por um legado de memória e contra o apagamento”.
Quando imagens não sensibilizam o suficiente
Para Muniz,- as imagens de sofrimento e horror não conseguem sensibilizar o suficiente para o processo de limpeza étnica e genocídio vivido pelo povo palestino.
“Isso acontece porque não são as imagens em si que ajudam a informar sobre a Palestina, mas a relação do nosso olhar com elas. Imagens são apenas imagens se não forem acompanhadas de uma consciência crítica de como, historicamente, o povo palestino foi desumanizado e estigmatizado.”
Essa estigmatização também foi construída pela mídia, como explica a pesquisadora:
“Filmes também são responsáveis por representar narrativas carregadas de estigmatização, construídas a partir do racismo e pelo que o crítico literário palestino Edward Said chamou de Orientalismo (representação e interpretação do Oriente pelo Ocidente por meio de estereótipos e com conotações de dominação e poder)”.
“Assim, é preciso exercitar o pensamento crítico para que as narrativas que chegam até nós sejam sentidas, questionadas e nos mobilizem de fato”, finaliza.
Muniz também lembra que a atual situação do povo palestino é um processo de colonização e limpeza étnica exercido pelo Estado de Israel desde 1948.
“Já são mais de 55 mil vidas palestinas perdidas desde outubro de 2023, mais de dois milhões de pessoas deslocadas forçadamente e milhares que morrem de fome. O povo palestino precisa parar de ser assassinado, preso, expulso. Deve ter seu direito de viver dignamente em suas terras garantido. Lutar pela libertação e pela segurança dele é lutar por liberdade e vida digna para todos, inclusive para o povo judeu”, conclui.
A seguir, conheça 7 filmes que ajudam a entender o que acontece na Faixa de Gaza.
O que resta do tempo (2009)
O filme, sob a direção do cineasta e ator palestino Elia Suleiman, reúne quatro relatos que atravessam diferentes momentos de sua trajetória, começando em 1948 e chegando até o presente. As cenas revelam aspectos da vida de palestinos que permaneceram em seu território de origem e, por isso, passaram a viver como minoria dentro de Israel, enfrentando os desafios do cotidiano nessa condição.
Introduction to the End of an Argument (1990)
O artista libanês-canadense Jayce Salloum e o cineasta palestino Elia Suleiman, que vive em Nova York, abordam nossas (más) impressões acumuladas sobre a Intifada Palestina, rastreando sua origem no cinema e na televisão.
Eles não existem (1974)
Do cineasta Mustafa Abu Ali, este curta-metragem rodado em 16 mm retrata a realidade dos campos de refugiados palestinos no Líbano, os impactos dos bombardeios israelenses e o cotidiano de guerrilheiros em áreas de treinamento.
Emwas: Restoring Memories (2016)
A cineasta Dima Abu Ghoush nasceu na vila de Emwas, localizada na região de Latrun, na Cisjordânia, a cerca de 25 quilômetros de Jerusalém. No segundo dia da Guerra de 1967, quando tinha apenas dois anos, Dima e sua família foram expulsas pelo exército israelense — assim como todos os moradores de Emwas e das vilas vizinhas Yalo e Bayt Nuba. Ao longo da vida, Dima ouviu muitas histórias sobre sua terra natal, mas só conheceu o local como Parque do Canadá, criado por Israel em 1973 sobre os escombros das vilas destruídas. Em 2009, com o apoio de familiares e amigos, ela decide reconstruir uma maquete de Emwas como era antes da guerra. O filme dá vida à vila desaparecida por meio da memória coletiva daqueles que ali viveram e que ainda sonham com o retorno.
Tantura (2022)
Diversas aldeias palestinas foram esvaziadas em 1948. Para os israelenses, foi a Guerra da Independência; para os palestinos, foi a Al Nakba, a Catástrofe. O diretor Alon Schwarz reencontra ex-soldados israelenses e moradores palestinos para reexaminar o que ocorreu em Tantura, local de um massacre cometido por israelenses.
Sem chão (2024)
Ganhador do Oscar de Melhor Documentário em 2024, narra a história de Asel Adra, jovem ativista palestino de Masafer Yatta que, desde a infância, resiste à expulsão de sua comunidade pela ocupação israelense. Ele registra a destruição das casas e o apagamento do território, marcado pelo maior caso de transferência forçada na Cisjordânia. Durante essa luta, cruza caminhos com Yuval, jornalista israelense que apoia sua causa. Ao longo de cinco anos, os dois enfrentam juntos a violência da ocupação, desenvolvendo uma relação atravessada por profundas desigualdades: enquanto Asel vive sob repressão militar, Yuval tem liberdade. O filme foi criado por um coletivo palestino-israelense de ativistas, em meio a um dos períodos mais sombrios da região.
5 câmeras quebradas (2011)
Em 2005, o palestino Emad Burnat ganha sua primeira câmera ao nascer seu filho Gibreel e começa a filmar a resistência de sua aldeia, Bil’in, contra a construção de uma barreira israelense que destrói terras e olivais. Ao longo dos anos, registra prisões, invasões, violências contra moradores e o impacto em sua família. Suas câmeras são destruídas uma a uma durante os conflitos. Em 2009, Burnat se une ao cineasta israelense Guy Davidi para transformar essas imagens no documentário Cinco Câmeras Quebradas.




