8 filmes para conhecer a cultura drag

Produções ajudam a retratar como essa expressão artística se transformou ao longo dos tempos

A cultura drag queen é uma forma de expressão artística que desafia normas de gênero ao incorporar, de forma exagerada, características associadas ao feminino e ao masculino. “Além disso, combina elementos de teatro, moda, música e humor. É uma arte que busca ampliar as coisas, exagerar”, resume Heduardo Carvalho, criador da drag queen Dudakoo! e idealizador do projeto Cine Drag, que visa difundir o cinema com temática queer.

Carvalho explica que é difícil definir historicamente o surgimento da cultura drag queen. Acredita-se que o termo venha do teatro inglês, da expressão dressed as a girl (vestido como uma garota).

“É nebuloso, porque desconsidera outras culturas que poderiam fazer arte considerada drag”, contrapõe.

Justamente por brincar com signos relacionados aos gêneros de forma artística, manifestações do passado, como o transformismo, podem hoje ser consideradas parte da cultura drag.

“Você brinca com signos atribuídos aos gêneros e transforma em outras formas de expressão, diferentes da identidade de gênero que a pessoa possui”, explica David Martins, bacharel em Cinema e Audiovisual, criador da drag Saraah e autor da monografia Do flop ao pop: representatividade e protagonismo drag no audiovisual brasileiro.

“Nesse sentido, podemos dizer que as primeiras aparições da cultura drag mais visíveis no Brasil começaram no SBT, com o Show de Calouros, que dedicou espaço aos transformistas em formato de competição. Às vezes foi usada como chacota, às vezes enaltecida, mas, considerando o contexto da época, foi significativo para a televisão brasileira”, afirma Martins.

Mudanças atuais

O audiovisual é uma das formas de entender e acompanhar as mudanças relacionadas à arte drag. “Antes, drag estava muito vinculada ao entretenimento e à alegria, como nos retratado nos filmes clássicos ‘Para Wong Foo, Obrigado Por Tudo!’ e ‘Priscilla, a Rainha do Deserto’”, aponta

Além disso, nas últimas décadas, a arte drag também migrou de ambientes marginalizados e boates para o mainstream.

“Ela alcançou a cultura pop com programas de televisão, especialmente RuPaul’s Drag Race, que disseminou a arte drag para o mundo. Além disso, drag queens cantoras, como Pabllo Vittar e Gloria Groove, também fizeram a cultura drag furar bolhas”, analisa Carvalho.

Ao longo dos 17 anos de RuPaul’s Drag Race, houve discussões sobre se mulheres cis, pessoas trans e homens heterossexuais poderiam ou não ser drags, além do posicionamento de artistas contra o retrocesso nos direitos LGBTQIAPN+ e direitos humanos nos Estados Unidos. “As próprias drags originadas do programa hoje produzem seus próprios filmes e séries”, complementa Carvalho.

“O cinema tem papel importante não só em mostrar quem as pessoas são, mas também em resgatar a história do movimento LGBTQIAPN+ e mostrar a importância da cena drag. Muitos filmes ajudaram a construir o imaginário sobre o que é ser drag, saindo do espaço do transformismo, da comédia e do jocoso, para ocupar um espaço artístico”, completa.

A seguir, conheça 8 filmes que ajudam a entender a cultura drag!

Priscilla, a Rainha do Deserto (1994)

Três artistas — duas drag queens e uma mulher transexual — são contratadas para realizar um show em Alice Springs, uma cidade remota no deserto australiano. Para chegar até lá, eles partem de Sydney a bordo de Priscilla, um ônibus que se torna símbolo de suas aventuras e desafios pelo caminho.

Para Wong Foo, Obrigado Por Tudo! (1995)

Após vencerem uma competição em Nova York, duas drag queens e uma competidora inexperiente decidem viajar de carro para participar do concurso Drag Queen of America, em Hollywood. Durante a viagem, o trio enfrenta o preconceito de cidades do interior dos Estados Unidos. Quando o carro quebra em uma pequena cidade, eles precisam lidar com a desconfiança dos moradores e a hostilidade de um xerife homofóbico e racista, enquanto tentam conquistar o respeito da comunidade local.

Paris is Burning (1991)

O documentário retrata a cena ballroom de Nova York nos anos 1980, com competições performáticas de dança e moda organizadas por comunidades negras e latinas LGBTQIAPN+, que também incluíam drag queens.

Divinas Divas (2017)

O documentário resgata a história das artistas transformistas que, na década de 1970, testemunhou o auge de um Rio de Janeiro repleto de teatros de revista.

“Embora sejam mulheres trans e travestis, não deixam de estar inseridas no universo do transformismo ou do espetáculo”, aponta Carvalho.

Dzi Croquettes (2009)

Documentário que retrata a história dos Dzi Croquettes, um grupo de teatro que usava a irreverência para criticar a ditadura militar brasileira (1964-1985).

“O grupo não se identificava como drag, mas abarca o que hoje entendemos sobre a cultura drag, que é um conceito recente”, destaca Carvalho.

Madame Satã (2001)

Filme baseado em fatos reais, relembra João Francisco, encarcerado no Rio de Janeiro em 1932. No bairro da Lapa, o artista transformista sonha em se tornar um grande astro dos palcos.

Pink Flamingos (1972)

Uma família excêntrica, orgulhosa do título de “pessoas mais imundas do mundo”, vê seu reinado ameaçado por um casal rival. Determinados a manter a posição, eles iniciam uma competição extrema e bizarra para provar quem merece o título “Dirigido por John Waters e protagonizado pela drag queen Divine, o filme representa a drag na contracultura, afrontando padrões conservadores”, resume Carvalho.

Viva (2016)

Jesus é um jovem cubano de 18 anos em busca de sua identidade. Sem saber o que espera do futuro, ele trabalha fazendo maquiagem em um clube de drag queens em Havana, onde sonha em se apresentar. Quando finalmente tem a chance de subir no palco, é agredido pelo pai, um ex-boxeador ausente por 15 anos após ter sido preso. Diante do conflito, os dois lutam para se entender. “Mostra o significado de ser drag para muitas pessoas, especialmente em contextos de sobrevivência, resistência e expressão artística”, opina Carvalho.

Veja Mais

O que é queerbaiting?

11 filmes para entender diferentes vivências de pessoas trans