Woke é um termo em inglês que significa “acordado”, referindo-se a estar consciente ou atento às questões sociais, especialmente aquelas relacionadas à justiça racial, desigualdade de gênero, direitos LGBTQIAPN+, mudanças climáticas, entre outros. Ele surgiu dentro de movimentos negros nos Estados Unidos e abrangeu outras causas progressistas e inclusivas.
“A efervescência do movimento woke definitivamente se deu a partir da violência perpetuada pela polícia contra os afrodescendentes norte-americanos, tendo por reconhecimento internacional a morte de George Floyd em Minnesota”, explica Fernanda Barros dos Santos, professora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos Suely Souza de Almeida (NEPP-DH) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Porém, com o passar do tempo, o termo também passou a ser utilizado de maneira pejorativa para criticar excessos ou posturas consideradas exageradas no ativismo. Setores conservadores passaram, assim, a se engajar em uma agenda “anti-woke”.
“Ou seja, o termo começou a se referir ‘ao politicamente correto’ e a ‘cultura do cancelamento’, transformou-se em uma guerra cultural produzida por aqueles contrários aos direitos das minorias”, afirma Santos.
Em entrevista, a pesquisadora explica o contexto das reações anti-woke e seus impactos na sociedade.
Como você definiria o termo “woke”?
Santos: O termo pode ser traduzido para “acordei”, uma gíria comum nos Estados Unidos usada pela comunidade negra. A ideia é um despertar sobre as injustiças raciais no país. O reaparecimento ocorreu com o movimento Black Lives Matter, após a morte de George Floyd, em 2020.
Concomitantemente, o termo também começou a se referir ‘ao politicamente correto’ e ‘cultura do cancelamento’. Transformou-se em uma guerra cultural produzida por aqueles contrários aos direitos das minorias (negros, latinos, mulheres, comunidade LGBTQIAPN+ e outros). Passou a ser usado por uma agenda conservadora que se coloca contra a educação de gênero, diversidade sexual nas escolas, racismo e outros temas, uma vez que agenda woke prevê a inclusão social das minorias, reparação e mudança dos status quo nos espaços de poder.
Quando e em que contexto o movimento anti-woke começou a ganhar visibilidade?
Santos: A efervescência do movimento woke definitivamente se deu a partir da violência perpetuada pela polícia contra os afrodescendentes norte-americanos, tendo por reconhecimento internacional a morte de George Floyd em Minnesota.
Iniciaram ações afirmativas nas empresas sob enfoque de diversidade e inclusão, as chamadas quotas de gênero, raça e sexualidade, e aumento de produtos e serviços voltados às minorias e com respeito a elas – os programas de DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão, na sigla em inglês).
Em segundo lugar, o marketing de algumas empresas acompanhou o “movimento woke” e fizeram uma série de modificações, devido às objeções do público. Todavia, outras multinacionais tomaram o caminho contrário, como as do setor de tecnologia. E na Flórida, houve a aprovação da lei estadual “Stop Woke Act”, em 2022 (que proibiu escolas e empresas de ensinar conceitos relacionados a raça, gênero, racismo e privilégios).
Quais são os argumentos usados pelos defensores do movimento anti-woke para justificar suas posições?
Santos: Muitos afirmam ser as desigualdades inexistentes e que empresas devem atender seus consumidores “conservadores”, adotando postura neutra sobre o tema. Também pretendem eliminar as burocracias ligadas às políticas DEI.
As críticas recaem sobre a divisão da sociedade por questões de política identitária e a ruptura com a tradição branca, cristã, religiosa, cisteheternomativa e patriarcalista.
Vale observar que a maioria dos defensores são setores conservadores brancos, de supremacia branca, e até dentro das minorias de esquerda que objetivam a continuidade da misoginia, patriarcalismo, sexismo, racismo sistêmico e a LGBTQIAPN+fobia. Além disso, as classes altas, médias e baixas se veem ressentidas da agenda progressista das referidas minorias. Consideram que problemas como desemprego, renda e violência são resultados desses avanços no campo dos direitos humanos.
Quais políticas ou ações consideradas “woke” que enfrentaram resistência significativa?
Santos: A entrada e a representatividade de pessoas negras e da comunidade LGBTQIAPN+ nas grandes empresas, em cargos de destaque e liderança, além da presença e participação política destes grupos nos poderes Legislativo, Judiciário e Executivo.
Existe uma relação entre o movimento anti-woke e correntes políticas, como a extrema direita?
Santos: Nos Estados Unidos, podemos situar o Partido Republicano liderado por Donald Trump neste campo ideológico e político. Ao contrário da agenda clássica da direita tradicional que almejava o poder e a ordem, mas com respeito à democracia e ao jogo democrático, a direita radical apela para o conservadorismo, personalismo, a personalização do Estado, a radicalização dos desejos e do ódio coletivo, transformando o outro (outsider) em inimigo do Estado, portanto, inimigo do povo.
Quais são os impactos do movimento anti-woke para a sociedade e para minorias sociais e culturais?
Santos: Em linhas gerais, podemos entrever que haverá retrocessos no âmbito político-cultural; questões de gênero como o aborto; ações de combate ao racismo aos negros e latinos; militarização e ampliação das polícias; maior violência física e simbólica voltada às minorias sociais e o aprofundamento do machismo, sexismo, racismo sistemático e a LGBTQIAPN+fobia.
Veja mais:
Imagem: Drazen Zigic/Freepik