Capacitismo é o termo que define a discriminação contra pessoas com deficiência. “Trata-se de um sistema de hierarquização da diversidade humana que parte da suposição de que pessoas com deficiência são menos capazes ou eficientes em relação a um corpo considerado ‘normal’. Ele faz com que essas pessoas sejam vistas e tratadas como inferiores, como se não fossem plenamente capazes de participar da vida social e institucional ou de gerir suas próprias vidas”, explica a professora da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), Cláudia Sanz.
Além disso, o capacitismo enxerga a deficiência como uma responsabilidade exclusiva da pessoa e de sua família, e não da sociedade, que deveria minimizar barreiras. “O que impede a pessoa de viver plenamente não é a deficiência em si, mas a sociedade, que muitas vezes não consegue acolher essas diferenças e essa pluralidade”, analisa Sanz, que também coordena a pesquisa (In)visibilidades da pessoa com deficiência no regime contemporâneo de imagens no âmbito da UnB-Fenapaes.
Panorama no Brasil
A presença de pessoas com deficiência no cinema pode tanto reforçar quanto combater o capacitismo. De um lado, há um movimento, fruto da luta desse grupo, para viabilizar filmes que abordam a temática. Por outro, há a invisibilidade ou uma representação estigmatizada.
No projeto coordenado por Sanz, foram mapeados filmes exibidos no Brasil entre 2019 e 2023, em salas de cinema, televisão aberta e três plataformas de streaming. Dos 1.724 filmes brasileiros e estrangeiros identificados, 96,35% não possuíam personagens com deficiência. Entre os 3,65% que contavam com essa representação, apenas 1,45% traziam protagonistas com deficiência. Além disso, em 76% dessas produções, os personagens eram interpretados por atores sem deficiência – fenômeno conhecido como cripface.
“O mercado precisa criar mais espaço para PCDs. É fundamental que isso mude, pois existem bons atores e atrizes com deficiência, e é necessário que haja cada vez mais protagonismo nessas produções, tanto na frente quanto atrás das câmeras”, analisa o cineasta e pessoa com deficiência, Daniel Gonçalves.
Para ele, a participação de pessoas com deficiência no cinema está muito aquém do ideal, mas tem melhorado nos últimos anos. “Já é possível ver muitas produções feitas por pessoas com deficiência, e isso é primordial para mudar a maneira como somos representados”, analisa.
“Na maioria das vezes, quando pessoas sem deficiência fazem filmes sobre PCD, essas produções acabam sendo capacitistas, caindo em clichês, como superação ou coitadinho. Quando há pessoas com deficiência envolvidas, quase sempre se consegue fugir desses estereótipos”, opina o cineasta.
A seguir, confira 9 filmes que ajudam a entender e combater o capacitismo.
Meu nome é Daniel (2018)
Primeiro longa brasileiro dirigido por uma pessoa com deficiência, o documentário autobiográfico acompanha o cineasta carioca Daniel Gonçalves em sua busca por compreender sua condição, nunca diagnosticada pelos médicos.
Assexybilidade (2023)
Dirigido por Daniel Gonçalves, o documentário aborda a sexualidade de pessoas com deficiência, desmistificando tabus e enfrentando preconceitos. Com relatos diversos, incluindo o do próprio diretor, o filme amplia o debate sobre desejos, vivências e a luta contra a invisibilidade dessa comunidade.
Big Bang (2022)
Curta-metragem de Carlos Segundo sobre Chico, um homem com nanismo que trabalha consertando fornos, onde cabe com facilidade devido ao seu tamanho. Em um sistema excludente, sua única opção é resistir. “A câmera de Big Bang, que enquadra tudo a partir da altura de Chico, já o torna imperdível, mas a atuação de Giovanni Venturini como o consertador de fornos faz jus aos vários prêmios de melhor ator que recebeu. Big Bag tira a pessoa com deficiência e o corpo com nanismo do lugar de todos os estereótipos que o cinema em geral nos coloca”, avalia Gonçalves.
Lapso (2023)
Escrito e dirigido por Caroline Cavalcanti, o curta-metragem acompanha Bel e Juliano, dois adolescentes da periferia de Belo Horizonte. Prestes a completar 18 anos, Bel, que é surda, enfrenta desafios de comunicação por meio da língua de sinais.
A onda traz, o vento leva (2010)
Curta-metragem que narra a história de Rodrigo, um instalador de som automotivo que é surdo. O filme explora seu cotidiano de forma sensorial, destacando ruídos, vibrações, incomunicabilidade e incertezas.
A saudade faz norada aqui dentro (2022)
O filme acompanha um jovem de 15 anos, morador de um bairro humilde, que precisa enfrentar os desafios de uma doença degenerativa que o levará à cegueira. Entre as incertezas da adolescência e a perda gradual da visão, sua jornada se transforma em um aprendizado coletivo sobre enxergar a vida de novas formas.
Crip Camp: Revolução pela inclusão (2020)
Documentário sobre um acampamento de verão que inspirou jovens com deficiência a iniciar um movimento por um mundo mais igualitário.
A diferença entre mongóis e mongoloides (2021)
Híbrido entre documentário e animação, parte da história pessoal do diretor que tem um irmão e um tio com síndrome de Down. “O roteiro, a narração e a técnica de animação usados no curta nos fazem pensar sobre porque algumas pessoas são consideradas normais e outras não”, opina Gonçalves.
A pessoa é para o que nasce (1998)
Documentário sobre três irmãs cegas que cantam em troca de esmola em Campina Grande (PB). “Com falas assertivas, contundentes e uma bela fotografia em película, a produção quebra vários estereótipos capacitistas em relação às pessoas cegas”, garante Gonçalves.
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